Por Simone Paiva – Analista de Comunicação da FUNDECC – 29 de janeiro de 2026.
O leite é um dos alimentos mais presentes na mesa dos brasileiros, mas a segurança desse produto começa muito antes de chegar à indústria ou ao consumidor final. Começa na fazenda, no manejo dos animais e no uso responsável de medicamentos veterinários. É justamente esse ponto crítico que está no centro de uma pesquisa desenvolvida na Universidade Federal de Lavras, que analisa o uso de antimicrobianos em propriedades leiteiras de Minas Gerais e seus impactos econômicos, produtivos e na saúde pública.
O estudo, intitulado “Quantificação de Utilização de Antimicrobianos em Propriedades Leiteiras”, busca compreender a dimensão do uso desses medicamentos na produção animal, identificar riscos associados à presença de resíduos no leite e gerar subsídios científicos para práticas mais seguras e sustentáveis na cadeia leiteira.
Um ano de coleta e dados inéditos



A pesquisa envolveu um ano inteiro de coleta de dados em 118 fazendas leiteiras, revelando um panorama inédito sobre o uso de antibióticos na produção animal em Minas Gerais.
Segundo a professora Elaine Dorneles, o volume de medicamentos utilizados ao longo do período chama a atenção.
“Foram 12 meses de coleta em 118 propriedades. Não temos ainda o número exato de frascos, mas estamos falando de milhares de frascos de antimicrobianos utilizados ao longo do período.”
Ela explica que a preocupação central da pesquisa vai além da questão sanitária.
“Quando o produtor aprende a utilizar o antibiótico de forma correta e racional, evita perdas dentro da propriedade. Se não há resíduo no leite, esse produto não precisa ser descartado, o que representa ganho econômico direto para o produtor, além de um benefício importante para a saúde pública.”
Uso racional e prevenção de riscos

A coordenadora do projeto, professora Carine Rodrigues Pereira, destaca que o primeiro passo do estudo foi entender quanto, como e por que os antimicrobianos são utilizados na produção leiteira.
Diferente da medicina humana, onde a prescrição de antibióticos é obrigatória, na produção animal esse controle nem sempre ocorre, o que dificulta a mensuração do uso e pode favorecer a seleção de bactérias resistentes.
“Quando identificamos quais doenças são mais frequentes e quais antimicrobianos são mais usados, conseguimos propor estratégias de prevenção e reduzir o uso inadequado, evitando que esses medicamentos percam eficácia ao longo do tempo.” A resistência bacteriana é considerada hoje um dos principais desafios globais em saúde pública, dentro do conceito de Saúde Única, que integra saúde humana, animal e ambiental.
Formação acadêmica e impacto no campo



A mestranda e médica-veterinária Ana Carolina Chalfun de Santana, integrante da equipe do projeto, destaca que os resultados da pesquisa extrapolam o ambiente acadêmico.
“Nosso papel é levar esses dados para produtores, indústria, órgãos reguladores e para a sociedade. Quando o uso de antimicrobianos é mais consciente, reduzimos o risco de resíduos no leite, diminuímos custos e fortalecemos toda a cadeia produtiva.”
Ela ressalta que o estudo contribui diretamente para embasar políticas públicas, orientar práticas no campo e apoiar decisões estratégicas da indústria de laticínios.
A visão do setor produtivo
Parceira do projeto, a CCPR (Cooperativa Central dos Produtores Rurais) defende que o leite deve ser tratado como alimento seguro, e não apenas como matéria-prima.

Para o gerente de qualidade Cássio Camargo, a segurança do leite depende da responsabilidade compartilhada por todos os elos da cadeia produtiva.
“A qualidade passa por algo simples: água, sabão e atitude. Cada elo precisa fazer a sua parte para que o consumidor tenha acesso a um alimento seguro.”
Segundo ele, pesquisas como essa fortalecem a competitividade do setor e preparam a cadeia leiteira brasileira para atender às exigências do mercado nacional e internacional.
Ciência, segurança e sustentabilidade
Ao integrar universidade, setor produtivo e pesquisa aplicada, o projeto reforça o papel da UFLA e da FUNDECC na promoção de uma produção leiteira mais segura, sustentável e alinhada às demandas da sociedade.
Mais do que identificar problemas, a pesquisa aponta caminhos para o uso racional de antimicrobianos, a redução de riscos à saúde pública e o fortalecimento econômico do produtor rural, mostrando que competitividade e segurança alimentar caminham juntas.

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