Quando o site também aprende a enxergar

Pesquisa da UFLA desenvolve sistemas mais acessíveis para produtores rurais e pessoas com deficiência visual

Por Simone Paiva – Analista de Comunicação da FUNDECC

Uma imagem de vacas em um campo verde pode parecer apenas ilustrativa. Para uma pessoa cega, ela pode significar tudo — ou absolutamente nada. A diferença está em poucas linhas de código. Para que serve um campo de formulário quando se chega até ele e não é possível identificar sua função? É nesse detalhe, quase invisível para quem enxerga, que atua a pesquisa desenvolvida no GEDAI – Laboratório de Processamento, Ciência de Dados e Inteligência Artificial, da Universidade Federal de Lavras (UFLA).

O trabalho foi apresentado durante um workshop realizado no sábado, 7 de fevereiro, e mostra como a acessibilidade digital, quando pensada desde o início do desenvolvimento de sistemas, pode transformar o acesso de pessoas cegas, pessoas com deficiência visual, idosos e produtores rurais a serviços públicos essenciais.

Acessibilidade como princípio, não como correção

A pesquisa integra um convênio com o Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA), órgão do Governo de Minas Gerais responsável por ações de defesa sanitária animal e vegetal, com gestão da Fundação de Desenvolvimento Científico e Cultural (FUNDECC). No âmbito desse convênio, estão sendo desenvolvidos sistemas como o SIDAGRO e o GeoProcess, plataformas utilizadas tanto internamente pelo IMA quanto por produtores rurais e cidadãos em todo o estado.

O diferencial do projeto está no compromisso com a acessibilidade como parte central da entrega — e não como um ajuste feito apenas ao final. Essa abordagem foi demonstrada na prática por Gabriel Aguiar Alves e Silva, estudante de Sistemas de Informação da UFLA e integrante do GEDAI. Durante o workshop, ele apresentou uma tela de login simples, criada especificamente para mostrar que tornar um sistema acessível não exige soluções complexas.

O básico que muda tudo

Pessoas cegas utilizam leitores de tela — softwares que percorrem os elementos da página e fazem a leitura do conteúdo. Quando um site não é desenvolvido de forma acessível, o leitor apenas informa que existe uma imagem, sem explicar o que ela representa. Ao aplicar conceitos básicos de acessibilidade, a imagem passa a ser descrita corretamente, permitindo que a pessoa compreenda o contexto e navegue com mais autonomia.

É o básico do básico, mas só isso já muda completamente a experiência de quem usa”, explicou Gabriel durante a apresentação.

Além da demonstração prática, o grupo desenvolveu uma ferramenta de apoio ao desenvolvedor, que funciona como um guia durante a programação, indicando o que precisa ser feito para garantir que a acessibilidade esteja presente desde as primeiras linhas de código.

Pensar em quem usa — e não apenas em quem desenvolve

A lógica técnica por trás dessa construção foi detalhada por Esther Silva de Magalhães, desenvolvedora front-end do GEDAI. Segundo ela, muitos sistemas deixam de ser acessíveis não por falta de tecnologia, mas por não considerarem a diversidade de usuários.

Existem elementos que são visuais, mas não sonoros. Se eles não forem descritos corretamente, a pessoa cega simplesmente não sabe o que está ali”, explicou. A atenção vale para imagens, botões, formulários e até pequenos detalhes, como o destaque visual de um campo selecionado — essencial para pessoas com baixa visão ou com dificuldades motoras.

Uma mudança de cultura no desenvolvimento de software

Para Júlio César Souza de Lima, desenvolvedor sênior e tech lead da FUNDECC, a principal inovação do projeto está na mudança de cultura dentro do desenvolvimento de software.

Normalmente, a acessibilidade é pensada no final, como correção. Aqui, ela faz parte da entrega obrigatória do projeto”, destacou.

O convênio com o IMA tem duração de três anos, de 2024 a 2027, e prevê que todos os sistemas desenvolvidos atendam às normas e às legislações de acessibilidade vigentes. Segundo ele, desenvolver dessa forma reduz retrabalho, aumenta a qualidade do sistema e garante que ele já nasça preparado para atender a sociedade como um todo.

Impacto direto na vida real

André Pimenta Freire,
Professor do Departamento de Ciência
da Computação da UFLA

O impacto da pesquisa vai além do ambiente acadêmico. Como explica André Pimenta Freire, professor do Departamento de Ciência da Computação da UFLA e pesquisador do convênio com o IMA, os sistemas desenvolvidos serão utilizados diariamente por produtores rurais, comerciantes, servidores públicos e cidadãos em geral.

O IMA presta serviços essenciais à sociedade. Temos produtores rurais idosos, pessoas com limitações visuais, auditivas ou motoras que continuam em atividade. Os sistemas precisam estar preparados para essas realidades”, afirmou.

Felipe Fortes Braz, doutor em Física e pessoa cega, também compartilhou sua percepção sobre o projeto. Atualmente, ele atua como técnico em regulação da CEMIG.

É importante esse movimento de empatia, de pessoas sem deficiência olharem para as pessoas com deficiência. Para nós, não basta clicar em um elemento visual na tela. Precisamos interagir com o teclado e ouvir o leitor de telas indicar exatamente onde está cada botão, cada link, cada item. Vejo com muita alegria essa iniciativa da UFLA, do IMA e do Governo de Minas Gerais. Quando um sistema é genuinamente acessível, isso nos traz autonomia, confiança e a possibilidade de realizar nosso trabalho da melhor forma possível.

Tecnologia que faz sentido

Durante o desenvolvimento do projeto, surgiram relatos do cotidiano que reforçaram essa importância. Estudantes envolvidos na pesquisa ouviram de comerciantes e produtores rurais as dificuldades enfrentadas com sistemas antigos para emitir guias, autorizações e documentos obrigatórios.

Quando o aluno percebe que o sistema que ele desenvolve vai ajudar o vizinho, o comerciante do bairro ou o produtor que ele conhece, o trabalho ganha outro sentido”, destacou o professor.

Ao reunir ciência de dados, inteligência artificial e desenvolvimento de software, o GEDAI aposta em uma inovação que não se limita à tecnologia, mas se traduz em inclusão, autonomia e acesso. Com a gestão da FUNDECC, o projeto desenvolvido em parceria com o IMA reforça o papel da universidade pública na construção de soluções que dialogam diretamente com as necessidades da sociedade.

Mais do que cumprir normas ou modernizar sistemas, a pesquisa mostra que acessibilidade precisa ser pensada desde o início. Porque tecnologia de verdade não é a que impressiona pela complexidade, mas a que funciona para todos — inclusive para quem não enxerga a tela, mas precisa, como qualquer cidadão, acessar direitos, serviços e informação.

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