MUQUÉM: ONDE A CIÊNCIA NASCE, CRIA RAÍZES E TRANSFORMA GERAÇÕES NA UFLA

Por Simone Paiva, Analista de Comunicação da FUNDECC – 10 de dezembro de 2025

UM LUGAR ONDE A CIÊNCIA DESPERTA CEDO

A Fazenda Experimental Muquém, hoje oficialmente denominada Centro de Desenvolvimento Científico e Tecnológico em Agropecuária (CDCTA), desperta cedo. No silêncio úmido das primeiras horas, estudantes cruzam suas ruas de terra com pranchetas, sementes e expectativa. Ali, entre o vento que passa pelas lavouras e o som dos tratores que se preparam para o dia, pulsa uma das histórias mais importantes da Universidade Federal de Lavras (UFLA). Um laboratório vivo, uma escola a céu aberto, um espaço que formou – e continua formando – gerações que transformam a agricultura mineira e brasileira.

DE TERRA BRUTA A LABORATÓRIO VIVO

O cenário que hoje impressiona tanta gente teve um início bem diferente. Quando o Programa de Melhoramento de Plantas perdeu sua antiga área, onde hoje está o prédio da Medicina, a universidade precisou recomeçar do zero. A área destinada como compensação havia sido pasto, canavial e cafezal abandonados por anos.

Quando chegamos aqui, não tinha nada”, lembra o professor João Cândido, coordenador da fazenda e responsável técnico pelas aquisições de máquinas em 2025. “Era só mato e terra dura. Faltava infraestrutura, máquinas, galpões. Começamos do zero mesmo.”

A virada veio com um projeto financiado pela FINEP – Financiadora de Estudos e Projetos, vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação – que permitiu construir os primeiros galpões, instalar a câmara fria e adquirir os implementos básicos. Aos poucos, a Muquém se transformou no maior espaço experimental da UFLA.

O CAMPO QUE FORMA GERAÇÕES

Hoje, cerca de trinta grupos de pesquisa dividem o mesmo território: genética, fitopatologia, entomologia, fisiologia, arroz, batata, soja, feijão, grupos de estudos e startups acadêmicas. Em alguns dias, mais de setenta estudantes trabalham ali simultaneamente, cada um cuidando de uma parcela, anotando dados, avaliando linhagens e colhendo experiências fundamentais para sua formação.

Para muitos, é o primeiro contato com o campo científico.

No dia da reportagem, o professor Vinícius Carneiro conduzia atividades práticas com sua turma, reforçando o papel da Muquém como espaço essencial para aulas de campo e treinamento técnico. A presença constante de docentes e estudantes no local exemplifica a dinâmica de uso compartilhado da fazenda por diversos departamentos.

A mestranda Maria Viana contou que nunca havia feito pesquisa em campo até chegar ali. “Quando vi o tamanho da fazenda e o tanto de experimentos acontecendo ao mesmo tempo, fiquei impressionada. É um espaço que transforma a gente.”

A VOZ DE QUEM VOLTOU COMO PESQUISADOR

O professor Adriano Bruzzi, líder do Programa de Melhoramento de Soja da UFLA e pró-reitor de Pós-Graduação, também teve sua formação marcada pela Muquém.

“A Fazenda Muquém teve uma relevância enorme na minha formação profissional e pessoal. Desde os primeiros anos na UFLA, ainda como graduando em 1999, nós já conduzíamos experimentos lá sob orientação do professor Magno. Foi um período essencial para aprender experimentação na prática: manejo de culturas, condução de ensaios, observação e, sobretudo, trabalho em equipe. Pesquisa de campo não se faz sozinho.”

Plantação de soja

Quando retornou como docente, em 2011, Bruzzi ajudou a inaugurar uma nova linha de pesquisa na universidade.

Iniciamos o Programa de Melhoramento de Soja, algo que ainda não existia. E a Fazenda Muquém se tornou a base dessa iniciativa. Ali desenvolvemos dissertações, teses e trabalhos de conclusão de curso. Até hoje, a Muquém é um dos nossos principais pontos de experimentação.”

O depoimento reforça o papel da fazenda como espaço formador e estruturante para diferentes gerações de pesquisadores.

O BERÇO DE CULTIVARES QUE MARCARAM MINAS E O BRASIL

A Muquém também é o território onde nasceram cultivares que se tornaram referência no país. O Programa de Melhoramento de Feijão da UFLA já recomendou mais de doze cultivares, entre elas três clássicos:

  1. BRSMG Majestoso
  2. BRSMG Uai
  3. BRSMG Madre Pérola, famosa por não escurecer na prateleira – A UFLA teve participação na recomendação dessa cultivar.

Essas cultivares alimentam famílias, fortalecem agricultores e seguem sendo utilizadas em programas de melhoramento por todo o Brasil.

MEMÓRIAS QUE MOLDARAM A CIÊNCIA DO FEIJÃO NO BRASIL

Aposentado, mas sempre presente na história da pesquisa agrícola nacional, o professor Magno Ramalho é uma das maiores referências em melhoramento de feijão no país. Ele costuma dizer que olhar para o feijão de longe não funciona. “Feijão tem que ver de perto”, brinca, com a leveza característica de quem formou gerações de melhoristas na UFLA.

A fazenda experimental foi – e continua sendo – fundamental para a pesquisa agrícola da universidade. A estrutura da Muquém foi primordial para gerar cultivares com a qualidade que a UFLA produziu.

Para Magno, o feijão sempre foi a cultura ideal para formar novos pesquisadores: ciclo curto, grande variabilidade genética e até três gerações por ano, permitindo aprendizagem rápida e profunda.

Mais de cinquenta por cento das dissertações e teses tiveram o feijoeiro como foco. O aprendizado rápido com o feijão abriu caminho para pesquisas com outras espécies.

Ao falar de si, Magno revela o que acredita ser a essência da vida acadêmica:

“Um professor tem que se empenhar para que a próxima aula seja melhor que a anterior. E um pesquisador tem que acreditar que a próxima pesquisa contribua mais que as anteriores. Se consegui passar isso aos meus orientados, já me dou por satisfeito.”

A força da fala do professor Magno se mistura à própria história da Muquém, que ao longo de décadas se consolidou como berço de descobertas e formação humana.

A FORÇA DA PESQUISA QUE TAMBÉM ALIMENTA A UNIVERSIDADE

A fazenda possui 170 hectares, dos quais cerca de 40 são intensamente utilizados para experimentação. O restante inclui áreas preservadas que mantêm a biodiversidade e a saúde do solo.

As culturas se alternam ao longo do ano: feijão, soja, milho, milheto, batata, amendoim, trigo, aveia e arroz. Parte da produção chega ao Restaurante Universitário, fechando um ciclo entre pesquisa, cultivo e comunidade.

MUQUÉM EM MOVIMENTO: A NOVA FASE DE MODERNIZAÇÃO

Em 2025, a FUNDECC – Fundação de Desenvolvimento Científico e Cultural – executou, via FAPEMIG – Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais – um dos maiores investimentos da história da fazenda: quase dois milhões de reais destinados à aquisição de novos equipamentos. Sob coordenação técnica do professor João Cândido, chegaram:

Fresadora com três linhas  

Última entrega da FUNDECC – 09/12/2025

  • uma plantadora pneumática de alta precisão
  • uma colheitadeira de grãos
  • um pulverizador tratorizado
  • uma trilhadora de parcela vertical
  • uma carreta distribuidora de calcário
  • uma fresadora com três linhas

O impacto é direto: experimentos mais precisos, maior segurança para estudantes, mais eficiência no campo e fortalecimento dos programas de pesquisa.

A coordenadora de compras da FUNDECC, Christiane Figueiredo Alvarenga Fialho, destaca:

A FUNDECC investiu em equipamentos para a Fazenda Muquém. São máquinas modernas que fortalecem o ensino prático e permitem que os estudantes vivam experiências que vão além da sala de aula.

FUNDECC E FAPEMIG: PARCERIA QUE FAZ A CIÊNCIA AVANÇAR

Os novos equipamentos reforçam o papel da FUNDECC como instituição de apoio à pesquisa da UFLA, oferecendo infraestrutura moderna para projetos que impactam o ensino, a ciência e a sociedade. A FAPEMIG segue essencial no financiamento de tecnologias que fazem a pesquisa mineira prosperar.

ONDE O PASSADO E O FUTURO CAMINHAM LADO A LADO

Aqueles 170 hectares já testemunharam descobertas, safras difíceis, risos de estudantes, passos apressados de pós-graduandos e histórias que atravessam décadas.

A Fazenda Experimental Muquém é um espaço onde a universidade encontra a terra, onde ideias germinam e viram ciência, onde estudantes se descobrem pesquisadores e onde cultivares nascem para alimentar o Brasil. Um lugar onde o passado e o futuro caminham juntos.

Cada pessoa que passa por ali leva um pouco da Muquém consigo – na memória, na carreira ou na certeza de que a ciência floresce quando encontra solo fértil e gente apaixonada pelo que faz.

Colheitadeira de grãos

8 respostas para “MUQUÉM: ONDE A CIÊNCIA NASCE, CRIA RAÍZES E TRANSFORMA GERAÇÕES NA UFLA”

  1. Avatar de Ana Clara
    Ana Clara

    Que demais!!!

    1. Avatar de Comunicação Fundecc
      Comunicação Fundecc

      Obrigada

  2. Avatar de Katylin Souza
    Katylin Souza

    Excelente matéria!
    Muito sucesso pra você, Simone e toda equipe!

    1. Avatar de Comunicação Fundecc
      Comunicação Fundecc

      Amei escrever essa matéria! Obrigada.

  3. Avatar de Carolina
    Carolina

    Adorei esse texto!

    1. Avatar de Comunicação Fundecc
      Comunicação Fundecc

      Opa!!!! De uma jornalista de impresso, um belo elogio! Obrigada

  4. Avatar de Rosângela Santos
    Rosângela Santos

    Equipe de comunicação trabalhando muito bem, com textos claros e objetivos, trazendo informação acadêmica pra população em geral. Parabéns aos professores, pesquisadores e fundações, trabalhando juntos pro melhoramento no ensino, pesquisa e biodiversidade.

    1. Avatar de Comunicação Fundecc
      Comunicação Fundecc

      Obrigada Rosângela pela carinho!

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