Por Simone Paiva – Analista de Comunicação da FUNDECC – 09 de abril de 2026.
Congresso nacional reúne especialistas, estudantes e profissionais para discutir a construção com terra e caminhos para transformar este setor no Brasil.
Historicamente marcado pelo alto consumo de recursos naturais e pela emissão de carbono, a construção civil começa a olhar com mais atenção para soluções que, embora antigas, voltam a ganhar força diante dos desafios contemporâneos.
Na Universidade Federal de Lavras (UFLA), esse movimento já acontece dentro e fora da sala de aula — e ganha visibilidade com a realização do X Congresso de Arquitetura e Construção com Terra no Brasil – TerraBrasil 2026, entre os dias 27 e 30 de maio. A organização do evento conta com a gestão da FUNDECC (Fundação de Desenvolvimento Científico e Cultural), responsável pela condução administrativa e financeira, desde as inscrições até a viabilização das atividades.
O evento reúne pesquisadores, estudantes, profissionais e comunidade de diferentes regiões do com experiências práticas, avanços técnicos e desafios para ampliar o uso da terra em projetos e execução de obras no Brasil.
A universidade é o canteiro: formação com outro olhar
No cotidiano da UFLA, esse debate é impulsionado pelo NEMATENC (Núcleo de Estudos em Materiais e Técnicas Não Convencionais na Construção Civil), criado em 2017 com a proposta de ampliar o conhecimento dos estudantes de engenharia.

“A gente quer formar engenheiros com uma visão mais aberta, que não fiquem restritos ao concreto e ao aço, mas que saibam avaliar diferentes soluções construtivas”, explica a professora Andréa Corrêa, do Departamento de Engenharia da UFLA, da coordenação geral do X TerraBrasil 2026.
Segundo ela, o uso da terra na construção não é uma novidade, mas uma retomada. “Essas técnicas ficaram em desuso com a consolidação do cimento, mas já provaram, ao longo da história, que são eficientes, duráveis e adequadas a diferentes contextos.”
Essa experiência tem impacto direto na formação dos alunos.

“São alternativas mais sustentáveis e que precisam ser cada vez mais estudadas. Quanto mais essas soluções forem aplicadas, melhor para o planeta”, afirma a estudante Sofia de Marques, do quinto período de Engenharia Civil.
Para muitos, o contato com o tema representa uma mudança de perspectiva.
“É uma forma de inovar a partir de técnicas que já existem. A gente começa a pensar no futuro e nas próximas gerações”, Juan Victor Neves Ferreira Valle, construtor venezuelano que acompanhava as atividades do NEMATENC e buscava aprofundar conhecimentos nas técnicas de construção com terra.
Já para Giovanni Serafim Gouver, aluno de Engenharia Mecânica, o tema ultrapassa fronteiras entre cursos. “A construção não convencional envolve várias áreas. A gente aprende coisas que vão além da nossa formação específica. ”
Entre tradição e tecnologia
A construção com terra também incorpora avanços técnicos. Hoje, o Brasil já conta com normas para técnicas como adobe, taipa de pilão e Sistemas de Vedação em Terra (SEVT) — um passo importante para ampliar o uso dessas soluções.



“O avanço das normas é fundamental, inclusive para viabilizar financiamentos e dar segurança técnica às obras”, destaca a professora Andréa.
No campo prático, os projetos desenvolvidos pelo núcleo mostram como esses materiais podem ser aplicados. Estruturas em bambu, mobiliário e espaços experimentais dentro da universidade aproximam os estudantes da realidade do canteiro.



Para o artesão Alcimar Carlos Ferreira, que atua nos projetos com bambu, essa vivência faz diferença. “Os alunos saem da teoria e vão para a prática. É um aprendizado diferente, mais concreto. ”
O desafio da escala
Embora ainda concentrado em ambientes acadêmicos e iniciativas específicas, o uso de materiais não convencionais começa a ganhar mais visibilidade — movimento que também será aprofundado durante o congresso.


Entre os participantes confirmados está Márcio V. Hoffmann, da Taipal Brasil, empresa com mais de duas décadas de atuação em sistemas construtivos com terra.
“Hoje já não falta conscientização sobre a importância da sustentabilidade. O desafio agora é outro: avançar na aplicação técnica”, afirma.
Segundo ele, a ampliação do uso desses materiais depende do fortalecimento de toda a cadeia produtiva. “É preciso ensinar como projetar, desenvolver equipamentos, estruturar fornecedores e capacitar mão de obra. As técnicas precisam atingir padrões de qualidade e custo compatíveis com as soluções convencionais. ”
Mais do que técnica, uma questão estrutural
Também participante do TerraBrasil 2026, o professor Thiago Lopes, da Escola de Arquitetura da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), defende que o desafio vai além da engenharia.


“A terra é utilizada há milênios em diferentes partes do mundo. Não é uma limitação técnica”, afirma.
Segundo ele, a dificuldade está no modelo produtivo atual. “Vivemos sob uma lógica construtiva baseada em uma matriz industrial concentradora, que reduz a diversidade de técnicas e dificulta o avanço de soluções mais autônomas. ”
Informação, acesso e formação profissional
A ampliação do uso desses materiais também passa pela forma como o tema chega à sociedade.


Para o arquiteto e urbanista Flávio Duarte, especialista em bioarquitetura e também participante do congresso, a informação ainda não circula como deveria.
“O consumidor quer esse tipo de solução, mas muitas vezes não sabe onde encontrar”, afirma.
Segundo ele, é necessário ampliar a divulgação, fortalecer as normativas e investir em desenvolvimento tecnológico. “É preciso levar informação de forma clara, ampliar as normas e investir em processos que permitam escala, como pré-fabricação e mecanização. ”
Aprender fazendo
Essa conexão entre teoria e prática estará no centro do X TerraBrasil 2026. A programação inclui oficinas, palestras, rodas de conversa e atividades culturais.
Entre os destaques estão as oficinas práticas, que abordam a seleção de solos e técnicas construtivas como adobe, revestimento, SEVT (pau a pique), taipa de pilão, terra ensacada, e tintas com terra.
“Mais do que congregar, o congresso permite experimentar”, resume a professora Andréa.
A expectativa é reunir entre 200 e 350 participantes de diferentes regiões do país, em um evento que marca os 20 anos da Rede TerraBrasil.
O TerraBrasil 2026 é realizado pela UFLA, por meio da Escola de Engenharia (EENG) e do Departamento de Engenharia (DEG), Rede TerraBrasil, e PROTERRA com gestão da FUNDECC (Fundação de Desenvolvimento Científico e Cultural), responsável pela administração do evento, desde as inscrições até às aquisições necessárias para sua realização, com apoio e patrocínio de outras instituições governamentais e empresas parceiras.
Um movimento em construção
Se ainda não ocupa espaço dominante no mercado, a construção com terra e outros materiais não convencionais avança de forma consistente — impulsionada pela universidade, por profissionais da área e por uma nova geração de engenheiros e arquitetos.
Entre tradição e inovação, o que se vê é um movimento em construção — que questiona modelos consolidados e aponta para novas possibilidades de construir e habitar.

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