Ciência, persistência e impacto social: pesquisa pioneira da UFLA avança na cannabis medicinal

Por Simone Paiva – Analista de Comunicação da FUNDECC – 26 de janeiro de 2026.

A cannabis medicinal ainda carrega estigmas, dúvidas e interpretações equivocadas. Ao mesmo tempo, cresce o número de pacientes que dependem de medicamentos à base da planta para o tratamento de doenças que não respondem aos métodos convencionais. É nesse ponto de encontro entre ciência, legislação e necessidade social que se insere a pesquisa coordenada pela professora Vanessa Cristina Stein, desenvolvida na Universidade Federal de Lavras (UFLA) e gerenciada pela Fundação de Desenvolvimento Científico e Cultural (FUNDECC).

Após cerca de 15 anos de estudos, o projeto alcançou um marco inédito no país e hoje figura entre os trabalhos mais avançados do Brasil na área de cannabis medicinal.

Um laboratório único no Brasil — e autorizado

O laboratório coordenado pela professora Vanessa é o primeiro do país credenciado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) para realizar cultivo in vitro de Cannabis sativa com fins exclusivamente científicos e medicinais.

Além disso, a estrutura possui autorização institucional para manipulação genética, seguindo protocolos rigorosos de biossegurança. Essa combinação de credenciamentos é rara no Brasil e posiciona a UFLA como referência nacional nesse tipo de pesquisa.

Na prática, isso significa que não há cultivo em campo, não existe qualquer relação com uso recreativo e não ocorre produção de medicamentos para venda direta. Todo o trabalho é realizado em ambiente controlado, dentro de frascos de laboratório, com foco exclusivo na pesquisa científica da planta e de seus compostos.

Pioneirismo construído com rigor técnico

O credenciamento do laboratório foi resultado de um processo longo e complexo. Foram necessárias adequações estruturais, desenvolvimento de protocolos específicos e atendimento a exigências técnicas que levaram anos para serem cumpridas.

Até recentemente, nenhuma outra instituição brasileira reunia todas as autorizações exigidas para esse tipo de pesquisa. Apenas nos últimos anos, instituições como a Embrapa passaram a obter credenciamentos semelhantes, o que reforça o caráter pioneiro do trabalho desenvolvido em Lavras.

Por que estudar a cannabis medicinal?

A Cannabis sativa produz mais de 150 fitocanabinoides, compostos naturais com diferentes efeitos no organismo humano. Entre eles, dois são centrais para a área médica.

O canabidiol (CBD) não é psicoativo e está associado ao tratamento de epilepsia refratária, dores crônicas e distúrbios neurológicos. Já o tetrahidrocanabinol (THC) é o principal composto psicoativo da planta e, em altas concentrações, é indesejável para a maioria das aplicações médicas.

Um dos grandes desafios científicos é que a própria planta pode aumentar a produção de THC em resposta ao ambiente, mesmo quando o objetivo do cultivo é exclusivamente medicinal. Esse fator eleva custos, gera perdas e dificulta a padronização dos medicamentos.

O que a pesquisa desenvolvida na UFLA faz

A pesquisa atua diretamente na origem do problema: a planta. Por meio de técnicas de biotecnologia e edição gênica, o grupo busca desenvolver plantas que já cresçam com teor reduzido de THC, diminuindo a necessidade de processos químicos posteriores.

O objetivo é tornar a produção mais segura, reduzir custos industriais e ampliar o acesso da população a medicamentos de qualidade.

Parceria com a Ease Labs conecta ciência e indústria

O projeto conta com a parceria da Ease Labs, empresa farmacêutica especializada em medicamentos à base de cannabis.

Atualmente, a empresa cultiva a planta em países onde essa atividade é regulamentada, como a Colômbia, e importa o insumo para processamento no Brasil. A demanda apresentada à universidade é clara: reduzir ou eliminar o THC diretamente na planta, evitando processos químicos caros e complexos.

Os resultados obtidos na UFLA serão transferidos à empresa, que dará continuidade às etapas industriais até a disponibilização dos medicamentos à população.

Financiamento e desafios regulatórios

Embora a cannabis ainda gere debates sociais, o principal desafio enfrentado pela pesquisa no campo do financiamento esteve relacionado a entraves burocráticos e regulatórios, e não a preconceito institucional.

Ao longo dos anos, a professora Vanessa submeteu entre 15 e 20 projetos, muitos deles inviabilizados por fatores como a incompatibilidade entre o prazo dos projetos (24 a 36 meses) e o tempo de validade das autorizações da Anvisa, além de exigências administrativas rigorosas e longos trâmites de análise documental.

O projeto atual recebeu apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG) após um processo extenso de recursos, adequações técnicas e reavaliações administrativas, com reconhecimento do mérito científico da proposta.

Pesquisa básica hoje, impacto na saúde amanhã

Embora classificada como pesquisa básica, a iniciativa tem papel estratégico para a área da saúde. O laboratório gera conhecimento e material que subsidiam pesquisas em modelos animais, estudos clínicos conduzidos por grupos parceiros e o desenvolvimento de medicamentos mais seguros e acessíveis.

Foto retirada do site da UFLA

Esse caminho entre a pesquisa desenvolvida em laboratório e a aplicação em saúde é reforçado pelo professor Fernando Henrique Ferrari Alves, farmacêutico, pesquisador e diretor do campus da UFLA em São Sebastião do Paraíso.

“Quando falamos em cannabis medicinal, estamos tratando de um processo que exige rigor farmacêutico, controle de qualidade e validação científica em todas as etapas. A pesquisa desenvolvida na UFLA é fundamental para garantir que os compostos utilizados tenham origem conhecida, concentração controlada e potencial terapêutico comprovado”, destaca.

Segundo ele, o trabalho em laboratório é o primeiro passo para que, no futuro, seja possível evoluir para estudos clínicos e ampliar o acesso da população a tratamentos seguros e baseados em evidências científicas.

Informação como aliada contra o preconceito

Além dos desafios regulatórios, o preconceito social ainda é uma barreira a ser enfrentada. Para a equipe envolvida, esclarecer, informar e comunicar com responsabilidade também faz parte do trabalho científico.

Mais do que estudar uma planta, a pesquisa desenvolvida na UFLA contribui para qualificar o debate público, reduzir a desinformação e construir caminhos para que a ciência chegue, de forma segura e responsável, a quem mais precisa.

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