Por Simone Paiva – Analista de Comunicação – 08 de maio de 2026.
A FUNDECC presta homenagem a todas as mães pesquisadoras e colaboradoras que conciliam, com dedicação e excelência, os desafios da maternidade e da atuação profissional, contribuindo diariamente para o desenvolvimento da ciência, da inovação e do trabalho institucional.
Antes do laboratório, da sala de aula ou das reuniões, o dia já começou.
Tem criança para acordar, rotina para organizar, imprevistos que não cabem na agenda. Só depois disso vêm a pesquisa e os prazos.
Para muitas professoras e cientistas da Universidade Federal de Lavras (UFLA), a maternidade não acontece paralelamente à carreira — ela atravessa tudo.
“Quase o tempo todo a gente sente que está em dívida com alguém. Ou com o filho, ou com o trabalho.”

Mãe/Pesquisadora: Elaine Dorneles | Filha: Elis
A fala da professora Elaine Dornelles, do curso de Medicina Veterinária, traduz um sentimento recorrente: o desafio não é apenas organizar o tempo, mas lidar com a cobrança constante.
Essa percepção não é individual. Segundo a socióloga Vera Simone Kalsing, que estuda as relações entre trabalho, gênero e maternidade, esse conflito faz parte de uma estrutura maior.
“A sociedade ainda atribui às mulheres a responsabilidade central pelo cuidado. Mesmo quando estão plenamente inseridas no trabalho, essa expectativa não desaparece — ela se acumula.”
Quando o tempo não é suficiente
A rotina acadêmica exige continuidade, planejamento e concentração prolongada. A maternidade, por outro lado, opera na urgência.

“Conciliar essas duas dimensões sem se sentir culpada o tempo inteiro é algo muito difícil”, afirma Elaine Dornelles.
Ainda assim, ela não separa essas dimensões.
“A maternidade é parte de quem eu sou, assim como o meu trabalho. Para estar bem para minha filha, eu também preciso ter tempo para o que me realiza.”
A socióloga Vera Simone Kalsing observa que essa tentativa de equilíbrio carrega uma cobrança invisível.
“Existe uma idealização da ‘boa mãe’ e da ‘profissional produtiva’ que são praticamente incompatíveis.”
Entre a exigência da ciência e a imprevisibilidade da vida
A professora Vanessa Cristina Stein, do Departamento de Biologia da UFLA, atua em uma área de pesquisa altamente especializada, com foco em biotecnologia aplicada à Cannabis sativa para fins medicinais.
Entre laboratório, gestão de projetos e orientação acadêmica, a maternidade impõe outra lógica.


“Conciliar a maternidade com a pesquisa e a docência é um exercício constante de adaptação. A ciência exige planejamento de longo prazo. Já a maternidade exige presença imediata.”
“Existe uma cobrança silenciosa para dar conta de tudo com excelência. E isso significa conviver diariamente com a sensação de estar sempre devendo em algum dos lados.”
Ainda assim, ela aponta transformações importantes.
“A maternidade me trouxe um novo olhar para o trabalho. Me tornou mais objetiva, mais sensível e mais consciente do impacto do que faço. Hoje, busco produzir ciência com propósito.”
A maternidade como força — e não interrupção
Apesar dos desafios, a maternidade não aparece como ruptura na trajetória dessas mulheres, mas como uma dimensão que reorganiza prioridades e amplia o olhar.
Essa transformação também aparece na trajetória de outras docentes.
“A maternidade mudou tudo em mim desde o nascimento da minha filha, Maria Olívia. Como mãe solo, precisei reconstruir minha forma de trabalhar e de enxergar a vida e a ciência. Antes, eu me guiava muito por produtividade; hoje, me guio por propósito.


“Aprendi a valorizar o tempo de forma mais consciente e entendi que fazer ciência também é um ato de cuidado — com os alunos, com a equipe e com os animais.”
— Vanessa Avelar
A ciência sempre me encantou desde a infância, mas a maternidade trouxe uma transformação profunda. Defendi meu doutorado poucos dias antes do nascimento da minha filha mais velha, Carol, e ali minha vida já começou a mudar. Depois veio a Mari, completando esse processo.



A maternidade me trouxe mais propósito, sensibilidade e responsabilidade. “Minhas filhas me tornaram não só uma profissional melhor, mas um ser humano mais completo.”
— Dra. Joziana Muniz de Paiva Barçante, Departamento de Medicina (DME), Faculdade de Ciências da Saúde (FCS) – UFLA
“A carreira acadêmica exige muito, e minha estratégia foi integrá-las ao meu mundo profissional. Elas conhecem meus alunos, frequentam o laboratório e participam da rotina. Sempre procurei mostrar o valor do meu trabalho, para que ele fosse motivo de orgulho, não de disputa por tempo.”
— Joziana Barçante

Para a socióloga Vera Simone Kalsing, essa ressignificação é recorrente.
“Muitas mulheres passam a atribuir novos sentidos ao trabalho depois da maternidade.”
Nos bastidores da ciência, outras mães também sustentam essa rotina
Se, de um lado, estão as pesquisadoras, do outro há mulheres que garantem que a estrutura da ciência funcione.
Na Fundação de Desenvolvimento Científico e Cultural (FUNDECC), mães que atuam na área administrativa e no apoio aos projetos conciliam prazos, processos e demandas institucionais com a rotina dos filhos.
Entre planilhas, atendimentos e urgências, a maternidade também atravessa o cotidiano dessas profissionais.
“Ser mãe é uma dádiva divina, honra e vocação nobre, envolvendo amor incondicional, sacrifício e a responsabilidade de instruir os filhos nos caminhos de Deus.”
— Elizabeth Rezende, mãe de Bruno e Lívia
“A correria começa cedo, desde a hora que acorda. Mas é por ela que tudo faz sentido e vale a pena.”
— Alana Torres, mãe de Ana Clara
“É equilibrar responsabilidades com apoio e acolhimento. E viver um amor que palavras não explicam.”
— Christiane Figueiredo, mãe de Pietro
As experiências se cruzam em diferentes rotinas, mas convergem em pontos comuns: o tempo escasso, a necessidade de adaptação e a construção de um equilíbrio possível.
A socióloga Vera Simone Kalsing destaca que essa realidade também aparece fora da docência.
“O trabalho invisível não está apenas no cuidado com os filhos, mas também nas funções institucionais que sustentam as organizações.”
Entre o visível e o invisível
Seja na pesquisa ou na administração, existe uma dimensão que não aparece nos relatórios: o esforço emocional, a gestão do tempo fragmentado e a necessidade constante de adaptação.
A ciência avança nos laboratórios, nos projetos e nas publicações. Mas também depende, diariamente, de quem organiza, viabiliza e sustenta essa estrutura — muitas vezes conciliando tudo isso com a maternidade.
Mais do que conciliar, sustentar
No fim, a palavra “conciliar” talvez não dê conta.
Não se trata apenas de equilibrar funções, mas de sustentar — com esforço e adaptação constante — dois mundos que exigem presença integral.
E, mesmo sem caber perfeitamente na rotina, seguem coexistindo.
Porque, para essas mulheres, tanto a ciência quanto a maternidade não são escolhas excludentes — são partes inseparáveis de quem elas são.
Nos retratos a seguir, essas histórias ganham rosto, nome e cotidiano — em imagens que revelam o que muitas vezes não aparece na rotina de trabalho, mas sustenta tudo o que ela torna possível.



















Uma resposta para “Ciência e maternidade: entre a pesquisa e o cuidado, o desafio diário de conciliar dois mundos”
Rosângela SantosLinda homenagem as mães que fazem parte da Fundecc, matéria maravilhosa que enaltecem a dupla jornada dessas mães maravilhosas que fazem tudo com muito amor!🥰❤️

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