Iniciativa reúne alunos de diferentes cursos para discutir obras literárias e ampliar o pensamento crítico em meio à rotina digital
Por Simone Paiva – Analista de Comunicação da FUNDECC – 17 de março de 2026.
Na sala conhecida entre os estudantes como “Lado Negro da Força”, inspirada no universo de Star Wars, um grupo se reúne semanalmente em torno de um livro. O encontro foge ao esperado: em vez de algoritmos, códigos ou sistemas, o foco está na literatura.


O espaço é o Gedai – Laboratório de Geoprocessamento, Ciência de Dados e Inteligência Artificial da UFLA –, que conta com apoio da FUNDECC (Fundação de Desenvolvimento Científico e Cultural), frequentado por alunos de cursos como Sistemas de Informação, Ciência da Computação e Engenharia de Controle e Automação. Foi ali, a partir de uma conversa informal, que surgiu um clube do livro que hoje reúne cerca de 14 participantes e segue uma proposta simples: ler e discutir uma obra por mês.
“A ideia surgiu aqui na sala. Todo mundo dizia que tinha vontade de ler, mas não tinha o hábito. Então pensamos em criar um clube do livro”, conta Eloiza Silva, Product Owner do Gedai, que ajudou a organizar o grupo.
Leitura coletiva e aprofundamento
Os livros são divididos ao longo do mês e debatidos em encontros semanais. A leitura atual é Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago — obra que tem provocado reflexões sobre comportamento humano, ética e sociedade.

Para Gustavo Soares, estudante de Ciência da Computação, o formato coletivo transforma a experiência de leitura.
“Não é só ler por ler. A gente lê para depois discutir o livro juntos. Então você presta mais atenção e tenta entender melhor o que o autor quis dizer.”
Mais do que um exercício intelectual, a prática também representa uma pausa na rotina marcada por telas.
“Como a gente passa muito tempo em frente ao computador, lendo código e mexendo com tecnologia, a leitura virou um momento de silêncio e concentração”, afirma.
Entre telas e página


A iniciativa também tem revelado novos caminhos de desenvolvimento entre os participantes. Para Gabriel Aguiar Alves Silva, estudante de Sistemas de Informação e integrante da equipe de design e acessibilidade do Gedai, o clube amplia o olhar dentro de um ambiente predominantemente técnico.
“A gente trabalha muito em tela. A leitura acaba sendo um momento diferente, de foco e de reflexão.”
A experiência é compartilhada por outros integrantes, que destacam o impacto do clube para além da leitura individual.
“Participar do Clube do Livro desde o início foi uma excelente iniciativa. A gente consegue unir o hábito da leitura com discussões que normalmente não teríamos no dia a dia, abordando temas diferentes das nossas áreas”, afirma Vanessa Souza, estudante de Engenharia de Controle e Automação. “Além disso, conseguimos reunir qualidades de todo mundo, desenvolvendo pensamento crítico, criatividade e até aspectos de design, tudo isso em prol do nosso entretenimento e crescimento pessoal.”
Leitura que vira experiência

Além dos encontros, o grupo criou uma forma simbólica de registrar cada obra concluída: marcadores de página personalizados, desenvolvidos pelos próprios estudantes.
“A gente quis criar algo que representasse o clube. Então fizemos um marcador e depois pensamos em fazer um para cada livro que a gente lesse”, explica Thaís Geovana, estudante de Ciência da Computação.
A proposta é chegar ao final do ano com 12 marcadores — um para cada leitura realizada ao longo dos meses.
Leitura no Brasil: cenário e desafios
Iniciativas coletivas como a do Gedai ajudam a transformar a leitura em uma prática mais contínua, compartilhada e significativa — especialmente entre jovens inseridos em rotinas intensamente digitais.
Fonte: Instituto Pró-Livro – Retratos da Leitura no Brasil (5ª edição)
Apesar de iniciativas como o clube do livro do Gedai evidenciarem o potencial da leitura como ferramenta de formação crítica, os dados nacionais mostram que o hábito ainda enfrenta desafios no país.
- Cerca de 52% dos brasileiros são leitores, ou seja, leram ao menos um livro (inteiro ou em partes) nos últimos três meses;
- A média nacional é de aproximadamente 2 a 3 livros lidos por ano por pessoa;
- A leitura ainda está fortemente associada ao período escolar, com redução após a vida acadêmica;
- Entre os principais obstáculos estão a falta de tempo, o desinteresse e a concorrência com atividades digitais.
Um espaço de encontro e reflexão
Criado no final do ano passado, o clube do livro já se consolidou como um espaço de convivência e troca de ideias entre os participantes. Mais do que incentivar o hábito da leitura, a iniciativa mostra que ambientes voltados à tecnologia também podem abrir espaço para reflexão, interpretação e diálogo.
Em um cenário em que o tempo é disputado por telas e múltiplas informações, o grupo do Gedai demonstra que o interesse pelos livros pode surgir justamente onde menos se espera — entre códigos, algoritmos e conversas compartilhadas.





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