Premiada, pesquisa da UFLA mostra que qualidade do café vai além da altitude

Por Simone Paiva – Analista de Comunicação da Fundecc – 29 de abril de 2026.

Reconhecimento nacional destaca estudo sobre fermentação que amplia o padrão da bebida e torna a técnica acessível a produtores de diferentes regiões

O prêmio veio agora, mas a história começou há bastante tempo. A professora e pesquisadora Rosane Schwan, da Universidade Federal de Lavras (UFLA), foi uma das homenageadas do Agro Mulher Brasil 2026, iniciativa que reconhece a atuação de mulheres no agronegócio. No caso dela, o destaque está na pesquisa e no impacto que esse trabalho vem gerando no campo.

Para mim foi uma surpresa, porque normalmente são empresárias, pessoas que estão à frente do setor. De professora de universidade, que eu saiba, eu fui a primeira”, conta.

O reconhecimento está diretamente ligado a uma linha de pesquisa que, ao longo dos anos, ajudou a mudar a forma como a qualidade do café é entendida no Brasil: o uso controlado da fermentação.

Uma mudança que começou na pesquisa

A fermentação do café sempre existiu, mas nem sempre foi compreendida ou controlada. Foi a partir desse ponto que começaram os estudos conduzidos pela pesquisadora, com foco no papel dos microrganismos e no impacto do processo na qualidade da bebida.

Essa foi a inovação da nossa pesquisa e a quebra de paradigma. Sempre se colocou que o café bom era o de altitude, acima de mil metros. Eu queria beneficiar quem não tem esse ambiente”, explica.

Durante muito tempo, a produção de cafés especiais ficou concentrada em regiões mais altas, onde as condições naturais favorecem a qualidade. Isso acabava limitando produtores de áreas mais baixas, que tinham menos acesso a esse mercado.

A pesquisa mostrou que o caminho não depende só do ambiente — o processo também faz diferença.

O que muda com a fermentação controlada

A técnica desenvolvida parte do uso de leveduras selecionadas e do controle das condições de fermentação, especialmente da presença de oxigênio.

As leveduras são benéficas para a fermentação. Elas transformam a mucilagem e a polpa do café em um produto de melhor qualidade”, explica.

Na prática, ao reduzir o contato com o oxigênio, o processo favorece esses microrganismos e evita a ação de outros que podem comprometer o café. Com isso, há uma melhoria nos compostos responsáveis por aroma e sabor.

Outro cuidado importante está na secagem.

Todo café fermentado precisa ter uma secagem lenta, para que os compostos de aroma e sabor permaneçam no grão”, diz.

Aplicação no campo: tecnologia possível

Uma das características mais relevantes da técnica é que ela não depende, necessariamente, de grandes estruturas.

Nesse processo, a atuação da Fundecc (Fundação de Desenvolvimento Científico e Cultural), responsável pela gestão administrativa e financeira de projetos de pesquisa, contribui para viabilizar ações que aproximam a universidade do setor produtivo.

Enquanto propriedades maiores conseguem trabalhar com tanques fechados e controle mais preciso, produtores menores têm adaptado o processo com soluções simples.

Uma delas é o uso de lona para cobrir o café durante a fermentação, reduzindo a entrada de oxigênio.

Se ele fechar bem, consegue um bom café”, afirma a pesquisadora.

Segundo ela, o ponto de partida continua sendo o cuidado com a matéria-prima.

Se o fruto estiver bem cultivado, todo café pode subir de nível com um processamento adequado.”

Essa possibilidade abre espaço para que produtores de diferentes regiões, inclusive de menor altitude, consigam melhorar a qualidade do café e acessar mercados mais valorizados.

Um caminho que levou tempo

Apesar dos resultados, esse reconhecimento não veio de forma imediata. Os estudos começaram há cerca de 30 anos, quando o tema ainda era pouco discutido no Brasil.

Para seguir com a pesquisa, foi preciso buscar parcerias fora do país.

Eu fiz parceria com pesquisadores de fora, que confiaram no trabalho e incentivaram a continuar buscando alternativas para uma fermentação mais controlada”, conta.

Com o tempo, os resultados começaram a aparecer e a técnica passou a ser adotada por produtores, especialmente no Sul de Minas.

Mesmo sem estar diretamente ligada a uma produção própria, a pesquisadora construiu sua trajetória em diálogo constante com o campo.

Meu objetivo sempre foi responder com a ciência e levar soluções para os produtores.”

Quando a pesquisa chega à lavoura

Hoje, os efeitos dessa pesquisa já podem ser observados na prática. Produtores que adotaram a fermentação controlada têm conseguido melhorar a qualidade do café e alcançar melhores posições no mercado.

Um exemplo é o da produtora Marisa Contreras, do Sul de Minas, que passou a trabalhar com a técnica em sua propriedade. Mesmo em área de menor altitude, ela conseguiu elevar o padrão da produção e alcançar pontuações mais altas, entrando no segmento de cafés especiais.

Eu não nasci debaixo do pé de café, mas construí a minha história debaixo dele”, conta.

A fazenda foi adquirida há cerca de 20 anos em uma área onde não havia sequer um pé de café. Farmacêutica de formação, Marisa deixou a carreira para se dedicar integralmente à produção.

Aprendi tudo do zero. Não era do ramo, não sabia nada.”

Segundo ela, o uso das leveduras desenvolvidas pela pesquisadora representou um ponto de virada no processo produtivo.

As leveduras não vieram apenas para fermentar café. Vieram para transformar a nossa vida.”

A produtora relata que a técnica permitiu extrair mais qualidade dos grãos e superar limitações históricas da produção.

Hoje conseguimos produzir cafés surpreendentes em baixas altitudes e, principalmente, manter a consistência.”

Na prática, a mudança não ficou restrita a lotes específicos.

A entrada das leveduras elevou a qualidade de todos os nossos processos.”

Os resultados já aparecem na xícara: a fazenda alcançou cafés com pontuação de até 90 pontos, padrão de excelência no mercado.

Reconhecimento também no setor

Esse movimento também começa a aparecer nos critérios de avaliação do próprio mercado.

A Associação Brasileira de Cafés Especiais, entidade que organiza concursos e define parâmetros de qualidade para cafés especiais no Brasil, passou a incluir processos fermentativos em suas classificações.

Segundo a pesquisadora Rosane Schwan, essa mudança reflete diretamente o avanço da ciência aplicada à produção.

Hoje eles já descrevem o tipo de fermentação nos cafés. Isso mostra que aquela tecnologia que a gente desenvolveu passou a ser reconhecida dentro do próprio mercado”, afirma.

Antes vistos como experimentais, esses processos passam agora a integrar categorias específicas de avaliação.

Isso é uma vitória, porque mostra que o setor entendeu que a fermentação, quando bem conduzida, é qualidade e não risco”, completa.

Mulheres, ciência e café

O prêmio recebido por Rosane Schwan faz parte de uma iniciativa que busca dar visibilidade à atuação feminina no agro.

Segundo William Rosa, organizador do evento, a proposta é reconhecer mulheres que contribuem para o desenvolvimento do setor.

Estamos evidenciando a contribuição feminina na pesquisa, na produção rural e no desenvolvimento sustentável”, destaca.

Mais do que um prêmio

Hoje, a fermentação controlada é vista como uma das principais inovações recentes na cafeicultura. Mais do que melhorar o sabor do café, ela amplia possibilidades para produtores e fortalece a conexão entre ciência e campo.

É uma tecnologia para melhoria da qualidade do café brasileiro. Acessível para pequeno, médio e grande produtor”, resume a pesquisadora.

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