Por Simone Paiva – Analista de Comunicação da FUNDECC – 16 de abril de 2026.
Simpósio reúne participantes de todo o país e evidencia como pesquisa, fiscalização e capacitação estão transformando o setor, com gestão da Fundação de Desenvolvimento Científico e Cultural (FUNDECC)
O movimento começa antes mesmo das palestras. Nos corredores, estudantes ajustam pôsteres, pesquisadores se reencontram, produtores observam atentos.
De diferentes regiões do país, cerca de 250 participantes chegam a Lavras para o Terceiro Simpósio Brasileiro de Cachaça de Alambique e o Sétimo Seminário da área, realizados na Universidade Federal de Lavras (UFLA), referência nacional na área, com gestão da Fundação de Desenvolvimento Científico e Cultural (FUNDECC).
Mas há um momento em que o ambiente muda.
Quando a professora Maria das Graças Cardoso chega, o ritmo desacelera. Pessoas se aproximam, cumprimentam, pedem fotos, fazem perguntas. O entorno se reorganiza ao redor dela. É reconhecimento.






Referência nacional e internacional, a pesquisadora construiu, ao longo de quase três décadas, um trabalho que ajudou a tirar a cachaça da informalidade e a estabelecer novos padrões de qualidade para a bebida símbolo do Brasil.
“Ela é uma inspiração. O sonho é chegar um pouquinho perto do que ela é hoje”, resume a estudante de Química Maria Eduarda Oliveira Salles, da Universidade Federal de Lavras (UFLA).
Da pesquisa ao campo: a nova geração da cachaça
Ao redor da professora, o simpósio revela um setor em transformação.

A estudante Vitória Francisco Oliveira Alvarenga apresenta um projeto que transforma bagaço de cana-de-açúcar em carvão ativado para tratamento de água.
“A gente pega um resíduo da agroindústria e transforma em um material que pode ser usado para remover contaminantes”, explica.
A proposta conecta sustentabilidade, reaproveitamento de resíduos e aplicação industrial — um retrato claro da nova geração de pesquisas ligadas à cadeia produtiva da cachaça.

De Contagem (MG), o químico, André Moreira de Souza participa do evento já com um objetivo definido: estruturar um laboratório de análise de cachaça.
“Viemos em busca de atualização e para entender como está a comunidade científica nessa área.”
Informalidade ainda domina o setor de cachaça
Apesar dos avanços, os desafios são evidentes.
A pesquisadora Ana Cláudia Silveira Alexandre, da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (EPAMIG), apresenta um diagnóstico direto:

“Hoje, cerca de 87% do setor de cachaça ainda é informal em Minas Gerais.”
Segundo ela, milhares de produtores ainda atuam fora da regularização, e mesmo entre os registrados há carência de assistência técnica.
“A produção ainda é muito baseada na tradição, passada de geração em geração. E isso faz com que erros persistam.”
Diante desse cenário, o Estado passa a atuar de forma mais integrada, com ações que envolvem pesquisa, extensão, capacitação e apoio direto ao produtor.
Entre as iniciativas está a criação de estruturas como o Alambique-Escola, voltado à formação prática, e programas que buscam orientar desde o cultivo da cana até o processo final de produção.
Fiscalização e regras: o que ainda trava o setor
Se a pesquisa orienta, a fiscalização organiza.
Auditora fiscal federal agropecuária do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), Andreia de Oliveira Gerk atua diretamente na regulação do setor em todo o país. Com atuação direta na regulação do setor em todo o país, ela destaca:

“Muitos produtores começam a atividade sem conhecer as obrigações legais.”
Segundo ela, a irregularidade mais comum ainda é básica: a falta de registro da produção e da bebida.
“A cachaça tem parâmetros de identidade e qualidade que precisam ser cumpridos. Quando isso não acontece, o produtor é autuado.”
Problemas de rotulagem, condições sanitárias inadequadas e ausência de controle de qualidade também estão entre as principais falhas.
Hoje, a estimativa é que apenas cerca de 10% dos produtores estejam regularizados no país.
Mais do que uma exigência legal, a regularização é também uma questão de segurança.
“Consumir produtos não registrados pode representar risco, por causa de compostos como metanol ou excesso de cobre”, alerta.
No âmbito estadual, o papel da fiscalização também ganha destaque.
A chefe de laboratórios do Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA), Lucimere Silva Caldeira Mendes, ressalta que o avanço da qualidade passa diretamente pelo controle e análise das bebidas.

“O laboratório atua justamente para garantir que a bebida esteja dentro dos padrões. A partir das análises, conseguimos emitir laudos e dar mais segurança tanto para o produtor quanto para o consumidor”, explica.
Segundo ela, a ampliação das estruturas laboratoriais e da capacidade de análise é fundamental para acompanhar o crescimento do setor e reduzir a informalidade.
Certificação: o caminho para ganhar mercado
É nesse cenário que o trabalho desenvolvido na Universidade Federal de Lavras (UFLA) ganha dimensão estratégica.

A professora Arilza de Oliveira Porto, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), destaca o impacto da atuação da professora Maria das Graças Cardoso:
“O trabalho dela trouxe controle de qualidade para a cachaça. Isso permitiu a exportação e o reconhecimento internacional.”
A estrutura construída na universidade, com laboratórios, pesquisa aplicada e prestação de serviços, passou a oferecer análises físico-químicas fundamentais para garantir padrões de qualidade.
Esse avanço sustenta um passo decisivo: a certificação da cachaça brasileira, com laudos reconhecidos internacionalmente — um movimento que conecta ciência, mercado e credibilidade.
Tradição, tecnologia e novas tendências
Se por um lado a ciência avança, por outro a tradição segue viva — agora em diálogo com tecnologia.


Produtor de quarta geração da Cachaça Rainha da Cana, em Abreus (MG), Pedro Henrique Vieira de Oliveira representa essa continuidade.
“Busco sempre me atualizar, fazer cursos e participar de eventos. A cada ano surgem novas tecnologias e a gente precisa acompanhar.”
Na pesquisa, esse movimento também se intensifica.

O pesquisador Wilder Douglas Santiago, que atua com envelhecimento da bebida, explica que o Brasil possui uma vantagem única.
“Enquanto outras bebidas usam poucas madeiras, a cachaça pode ser envelhecida em mais de 50 tipos diferentes.”
O uso de blends — mistura de cachaças envelhecidas em diferentes madeiras — aparece como uma das tendências mais recentes.
“Cada madeira interfere no aroma e no sabor. Isso permite criar bebidas com características únicas.”
Conhecimento que vira referência no setor

Em meio à programação, outro momento chama atenção: o lançamento da quinta edição do livro “Produção de Aguardente de Cana-de-Açúcar”.
Referência técnica no país, a obra sintetiza décadas de pesquisa, ensino e extensão, e se consolidou como um guia para produtores que buscam qualidade na produção.
Um setor em transformação

Para a própria professora Maria das Graças Cardoso, o simpósio representa mais do que um encontro científico.
“Cada edição mostra um maior entrosamento entre produtores, pesquisadores e estudantes.”
É esse encontro que define o momento atual do setor.
Com ciência, políticas públicas e capacitação avançando de forma integrada, a cachaça de alambique deixa de ser apenas tradição e passa a ocupar, com consistência, um espaço de qualidade, reconhecimento e mercado.
Um movimento que começou há décadas — e que agora ganha escala, método e reconhecimento no Brasil e no exterior.

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