Por Simone Paiva – Analista de Comunicação da FUNDECC – 14 de maio de 2026.
Casos de dengue, hanseníase e doença de Chagas continuam preocupando pesquisadores e profissionais da saúde. Na UFLA, simpósio internacional coordenado pela professora Joziana Barçante, do curso de Medicina, reúne especialistas do Brasil e exterior com apoio da FUNDECC
O telefone da professora Dra. Joziana Barçante, docente do curso de Medicina da Universidade Federal de Lavras (UFLA), tocou depois que um estudante de Medicina da instituição, morador do bairro Centenário, na região central de Lavras, encontrou um barbeiro dentro do apartamento onde vive.
O inseto era um barbeiro, vetor do Trypanosoma cruzi, protozoário causador da doença de Chagas.


A vigilância epidemiológica foi acionada, a região passou por monitoramento e o estudante recebeu acompanhamento. O barbeiro encontrado no apartamento dele não estava infectado, resultado confirmado por análises realizadas na UFLA e posteriormente pela Fiocruz Minas.
Segundo a professora, outros barbeiros positivos para a doença já foram identificados em diferentes pontos de Lavras, incluindo o bairro Dona Wanda e um condomínio do município.
“Por que ele me ligou? Porque ele sabia o que era um barbeiro”, relembra a pesquisadora.
O episódio ajuda a desmontar uma ideia ainda comum entre muitas pessoas: a de que doenças como doença de Chagas, hanseníase, leishmaniose e tuberculose pertencem apenas ao passado ou a regiões distantes do país.
Não pertencem.
Enquanto Minas Gerais já ultrapassa 52 mil casos prováveis de dengue em 2026, segundo a Secretaria de Estado de Saúde, enfermidades classificadas como negligenciadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) continuam atingindo milhares de brasileiros — muitas vezes impulsionadas pela pobreza, pelo saneamento precário, pelo diagnóstico tardio, pelas mudanças ambientais e pela dificuldade de acesso aos serviços de saúde. Entre 2020 e 2025, Minas Gerais registrou 5.570 novos casos de hanseníase, segundo dados do Boletim Epidemiológico Estadual da Hanseníase 2026. O próprio estado reconhece a existência de bolsões de transmissão ativa da doença.
A lista inclui doenças como:
- doença de Chagas;
- hanseníase;
- leishmaniose;
- esquistossomose;
- tuberculose;
- filariose linfática.
“Hanseníase está nos registros bíblicos e ainda é um problema”, afirma Joziana.

É nesse cenário que Lavras recebe entre os dias 19 e 23 de maio no Salão de Convenções da UFLA o VI Simpósio Brasileiro de Doenças Negligenciadas e o II Simpósio Mundial sobre o tema, coordenados pela professora Dra. Joziana Barçante.
O evento já reúne cerca de 430 inscritos, entre estudantes, pesquisadores, profissionais da saúde e representantes de vigilâncias epidemiológicas de aproximadamente 50 municípios da região de Varginha.
A programação contará com cerca de 80 palestrantes do Brasil e do exterior, incluindo representantes da Fiocruz, Instituto Butantan, Médicos Sem Fronteiras e pesquisadores da África, Colômbia e do Instituto de Medicina Tropical de Londres.
Mas, para a organizadora, o objetivo do simpósio vai muito além da discussão acadêmica.
“A ciência tem que ir onde o povo está”, resume.
Por isso, além das atividades dentro da universidade, o simpósio também promoverá ações abertas na praça pública, aproximando pesquisadores e população. Em 2024, mais de mil pessoas participaram das atividades abertas de ciência promovidas pelo evento.
“Quando a gente está lá na praça, é outra coisa”, diz a pesquisadora.
O lema do evento, segundo ela, também traduz essa preocupação social:
“Sem deixar ninguém para trás.”


Por isso, estudantes vulneráveis, servidores públicos da saúde e da educação não pagam inscrição. O simpósio conta ainda com apoio da CAPES, CNPq e FAPEMIG, além do suporte operacional e logístico da FUNDECC (Fundação de Desenvolvimento Científico e Cultural), responsável pelo apoio à organização, compras, passagens e gestão de projetos ligados ao evento.
A Fundação reconhece a importância da ciência, da inovação e da cooperação internacional no enfrentamento de doenças que impactam milhões de pessoas e demandam atenção da sociedade e da pesquisa em geral, destaca, Paloma Rodrigues – Gestora de Relacionamento da FUNDECC.
Barbeiros cada vez mais próximos das cidades

A tecnóloga em Saúde Pública do Instituto René Rachou (IRR/Fiocruz Minas), Raquel Aparecida Ferreira, alerta que a doença de Chagas segue entre as 20 doenças tropicais negligenciadas da Organização Mundial da Saúde.
Segundo ela, mesmo após décadas de pesquisa, ainda não existe vacina disponível para a doença, e os medicamentos atuais apresentam eficácia limitada, especialmente nos casos crônicos.
“A doença jamais será completamente erradicada em países endêmicos, porque seu ciclo ocorre naturalmente nos ambientes silvestres”, explica.
A pesquisadora chama atenção para uma mudança que preocupa especialistas: a aproximação dos barbeiros das áreas urbanas.
“Num cenário agravado pelas mudanças climáticas e pelas alterações ambientais provocadas pela ação humana, a tendência é que os triatomíneos se aproximem cada vez mais dos ambientes urbanos, aumentando o risco de transmissão”, alerta.
Para Raquel, controlar essas doenças exige investimento contínuo em vigilância, diagnóstico, educação em saúde e mobilização comunitária.
“Quanto mais doença, mais pobreza”
O biólogo e professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Andrey José de Andrade, acompanha o simpósio desde as primeiras edições e afirma que o evento nasceu justamente da preocupação com o avanço da leishmaniose visceral em Lavras.

“O simpósio começou de forma muito tímida, em uma mesa-redonda sobre leishmaniose visceral, que começava a aparecer no município e preocupava os pesquisadores”, relembra.
Segundo ele, a iniciativa liderada pela Dra. Joziana Barçante e pelo Dr. Thales Barçante cresceu e se transformou em uma referência nacional nas discussões sobre essas enfermidades.
“A UFLA se tornou referência no estudo das leishmanioses. Mas, mais do que produzir pesquisa, sempre houve uma preocupação muito grande com a formação de pessoas e com a educação em saúde”, afirma.
Para o pesquisador, essas doenças continuam atingindo principalmente populações invisibilizadas socialmente.
“Elas acometem pessoas com pouca voz política e baixa visibilidade social”, destaca.
Ele também chama atenção para a relação histórica entre doença e desigualdade.
“O ciclo ‘quanto mais doença, mais pobreza’ ainda se perpetua.”
Segundo Andrey, apesar dos avanços científicos, ainda existe pouco investimento mundial em medicamentos e tratamentos para essas enfermidades.
“Hoje, a discussão deixou de ser apenas biomédica. Ela também é política, econômica, social e cultural”, avalia.
O professor destaca ainda avanços recentes importantes, como a certificação do Brasil pela OMS como país livre da filariose linfática como problema de saúde pública e pesquisas brasileiras voltadas ao controle da esquistossomose e da dengue, incluindo o uso da bactéria Wolbachia no combate ao Aedes aegypti.
“O estigma dói”
Mas para algumas pessoas, a negligência não aparece apenas nos números ou nos estudos científicos. Ela deixa marcas permanentes.

Curado da hanseníase, Paulo Rodrigues, de Teresina (PI), afirma que esperou três anos até receber o diagnóstico correto da doença.
“Eu vi as manchas no meu corpo, procurei atendimento, fiz tudo corretamente. Mas o médico não pensou em hanseníase, mesmo vivendo em uma região hiperendêmica”, relata.
O atraso no diagnóstico trouxe consequências irreversíveis.
“Se eu tivesse encontrado um profissional preparado para suspeitar da doença, talvez não tivesse hoje as sequelas e a deficiência que carrego. Isso é um retrato claro da negligência.”
Hoje integrante do Movimento Nacional das Doenças Negligenciadas, Paulo afirma que o impacto emocional da doença muitas vezes continua mesmo após a cura medicamentosa.

“O estigma dói. A discriminação fere. Existem feridas emocionais que talvez levemos a vida inteira para curar.”
Segundo ele, incluir pacientes e pessoas curadas em debates científicos é fundamental para ampliar o olhar dos profissionais da saúde.
“O profissional traz a expertise acadêmica. Mas os outros 50% da informação só quem viveu sabe explicar. O olhar do paciente é único.”
Paulo afirma que a fala de quem enfrentou a doença ajuda a tornar o atendimento mais humano.
“Os livros não conseguem traduzir tudo. Uma cura medicamentosa não significa o fim da dor e do sofrimento.”
“Estamos perdendo expertise diagnóstica ano após ano”

Para o professor titular da Dermatologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP e presidente da Sociedade Brasileira de Hansenologia, Marco Andrey Cipriani Frade, o maior desafio atual da hanseníase no Brasil é justamente o subdiagnóstico.
“Estamos perdendo expertise diagnóstica ano após ano. As escolas de saúde não ensinam adequadamente sobre o agravo, a hansenologia deixou de ser especialidade em 1998 e a formação de especialistas é escassa no país”, afirma.
Segundo ele, o foco ainda excessivo nas lesões de pele faz com que muitos casos sejam identificados tardiamente, quando o paciente já apresenta danos neurológicos importantes.
“Hoje, quando realizamos campanhas de busca ativa, cerca de 70% dos diagnósticos são de pacientes com lesões mínimas na pele, identificados apenas após um exame neurológico bem feito. Apenas 30% apresentam lesões clássicas”, explica.
O pesquisador alerta que muitos pacientes convivem por anos com dores nos nervos, formigamentos, dormências e perda de sensibilidade sem receber o diagnóstico correto.
“As consequências são pacientes que sofrem por cinco a dez anos com sintomas neurológicos até que a lesão cutânea apareça, muitas vezes já com comprometimentos sensitivos e motores importantes”, destaca.
Para Marco Andrey, enfrentar a hanseníase exige investimento em formação médica e fortalecimento da atenção primária.
Muito além dos artigos científicos
Ao longo do simpósio, pesquisadores dividirão espaço com pessoas afetadas diretamente por essas doenças.
Uma delas é Dona Dirce, que participou do V Simpósio Brasileiro de Doenças Negligenciadas (SBDN). Ela convive com sequelas da filariose linfática, conhecida popularmente como elefantíase.
Durante sua participação no evento, resumiu em uma frase uma realidade que raramente aparece nos artigos científicos.
“Nosso pé é maior do que uma caixa de sapato.”
A dificuldade para encontrar calçados adequados devido ao inchaço provocado pela doença emocionou os organizadores do evento.
“Conseguir sapatos que caibam nos nossos pés vai ser libertador”, contou.
A fala provocou uma reflexão na professora Joziana Barçante.
“Às vezes a gente coleta sangue, publica artigo, faz tese… mas será que alguém se preocupa em saber o que essas pessoas realmente precisam? Nós nos preocupamos, e por isso as pessoas afetadas têm destaque em nosso evento.”
Mais do que discutir doenças, o simpósio pretende discutir pessoas.
Porque, apesar dos avanços científicos, muitas dessas enfermidades continuam crescendo silenciosamente — sustentadas pela desigualdade, pelo estigma e pela invisibilidade social.
E talvez esse seja o maior desafio dessas doenças: elas continuam existindo porque ainda existem pessoas que seguem invisíveis também.
6 respostas para “Doenças que muitos acreditavam extintas ainda avançam silenciosamente no Brasil”
FelipeNossa.. doença de chagas, hanseníase, tuberculose, nem sabia que essas ainda estavam por ai, e continuam avançando!
Simone Paiva LimaÉ realmente assustador. Por isso que esse simpósio precisa ser reconhecido.
Guilherme Leal BeneditoConteúdo muito relevante e que as vezes não chega até o público. Importante esse material ser produzido por vocês.
Simone Paiva LimaConcordamos com você. Nós aqui da comunicação da Fundecc estamos para os projetos apoiados pela fundação realmente cheguem à população.
Luciana VanessaA UFLA é um orgulho para os mineiros. Ter um centro de pesquisa neste nível deve ser reconhecido por todos.
Simone Paiva LimaAgradecemos seu comentário. A UFLA é realmente um orgulho para os mineiros

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